O valor do nada: Reflexões sobre a importância do vazio em nossas vidas
Hoje eu me sentei à beira do nada e me tornei senhor da verdade.
Num tempo em que a verdade já não é verdade nem mesmo em seus propósitos mais legítimos, não é segredo que o desejo de pertencer a um instante vital — capaz de transformar — se tornou essencial. Um momento capaz de evocar os sentimentos mais profundos, vindos até dos mares mais distantes e bravios, onde a importação não chega em navios, mas sim em gotas de ternura e sensatez.
É por isso que me sento à beira do nada — onde sou tudo o que seria em verdade e em sonho. O sonho é um estado de estranheza e alarde, de serenidade e tumulto, de lapsos temporais entrelaçados, onde o tempo carrega outros tempos.
Sentei-me no alto da história, e a história que não espera nos revela sua verdade. Não é a verdade dos que a viveram, mas o que sobra das narrativas contadas, assinadas, carimbadas — e muitas vezes falsamente autenticadas.
Quando me sentei hoje à beira do nada, já sabia: dali não viria nada concreto. Afinal, o concreto é a argamassa necessária para sustentar a história ou a estória. E se precisa de argamassa, é porque não se sustenta por si só.
Já não posso mais me sentar à beira do nada sem receio de que esse nada seja constrangedor, estranho, ou uma mistura de tudo ou ausência — um desabafo ou uma saudade. Mas tampouco posso deixar de fazê-lo. Acredito que o nada é aquilo de que precisamos para renovar nosso ímpeto de questionar a ausência reiterada. Para mim, o nada encerra qualquer questão, porque é o que tenho testemunhado: o nada que o povo tem recebido, o nada ofertado por políticos mal escolhidos, que não têm nada a oferecer.
Quero o nada como reinício do caos — que me conceda a chance de preencher os espaços vazios. Nada, nada para você. Para mim, o nada é a possibilidade do tudo. Nada é tudo. Tudo é nada.

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